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Saturday, May 06, 2017

MERCADO

Novo artigo no Jornal Mente/Corpo. Ano XV. No. 145. Abril 2017. Pag 10

Saturday, August 13, 2016

Pódio

Outra Visão ZH 13/08/2016

Aloyzio Achutti: pódio

Médico

13/08/2016 - 05h45min | Atualizada em 13/08/2016 - 05h45min

"Olimpíada 2016" polariza mídia e atenção. Será pela importância do exercício, caminho para a longevidade e fonte de saúde física e mental? Contrapõe-se à tendência progressiva para o sedentarismo, trocando músculos, esqueleto e sistema nervoso, por equipamentos informatizados e automáticos, facilitando comunicação e operação à distância, sem sair do mesmo lugar. Movimentos são evitados, até os de apertar botões ou dedilhar teclado, utilizando-se cada vez mais comandos de voz.
A emulação do esporte leva multidões aos estádios, mas deixa a imensa maioria na plateia apenas assistindo competições entre os poucos selecionados.
Provavelmente a atração não está no valor do exercício, mas provém de arquétipos relacionados com o abate de uma caça e a dominação de território. A conquista e a vitória se acompanham de prazer, e acionam nosso poderoso sistema nervoso de recompensa. O estresse físico e mental da disputa e da expectativa mobiliza catecolaminas capazes de produzir euforia, funcionando como compensação e fonte adicional de prazer.
No pódio somente subirão três, embora todos tenham sonhado lá chegar. Até a torcida, na imaginação de cada um. Quase todos, em contato com a realidade, terão que sublimar as frustrações, e apelar para o chamado "espírito esportivo" respeitando os demais, e conformando-se com a glória de ter competido, podendo ser este até um ganho adicional, ao se distinguir da população geral que ficou assistindo.
Num mundo tão desigual, onde muitos ficam expostos e estimulados a desejar as benesses alcançadas por poucos, tem-se pouco estudado o peso das frustrações. Estamos equipados para correr em busca do prêmio e do prazer. Aprendemos facilmente e tendemos a recorrer o caminho do sucesso, e fugimos do desconforto e da dor. Quando não conseguimos esquecer o insucesso buscamos consolo e remédios para neutralizar o desprazer. Tais alternativas para acalmar o sistema de recompensa — como substâncias psicoativas, drogas e violência — são frequentemente nocivas e podem explicar comportamentos destruidores de desiludidos, especialmente quando em ação grupal.
Nossa repulsa pela frustração provavelmente é responsável pela alimentação de fantasias, imaginando-nos no lugar daqueles poucos que conseguem se aproximar de metas, cada vez mais difíceis de atingir.
Fala-se muito nos campeões que alcançam ou superam os limites da capacidade humana, pouco nos riscos dos extremos — não sinônimos de saúde. Saudável é o exercício sistemático, continuado, moderado, adequado para a compleição física de cada um, e sem estresse exagerado.
Obviamente, deve haver muito mais interesses por trás da competição e da conquista do pódio do que benefícios para a saúde da população...

Sunday, April 12, 2015

AMIGOS...

Texto enviado no início da semana para ZH e não publicado (eu já imaginava que seria rejeitado)
GRANJEAR AMIGOS.
Aloyzio Achutti. Médico.

Motivado pelo tempo de Páscoa e dos sucessos da Polícia Federal, li novamente a parábola do “mordomo infiel e esperto” (Lc 16:1-9).
A estratégia do mordomo, na história de mais de vinte séculos é a mesma utilizada no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), agora investigada sob o nome de Operação Zelotes. Falta de criatividade? Ou será que os amigos se sentiram autorizados e até elogiados como espertos, pela própria citação do Evangelho?
O parágrafo final - cotejado com o restante da mensagem de Cristo - fica difícil de aceitar em sua versão literal: “E louvou aquele senhor o injusto mordomo por haver procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz. E eu vos digo: granjeai amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos".
Quanto do poder econômico repousa nas amizades com o poder político? E vice-versa?…
Para o senhor rico, a infidelidade do mordomo, não deve ter ocasionado grande impacto econômico ao perdoar devedores para granjear amizades. Sua demissão estava muito mais relacionada com a perda da confiança; mas em nosso caso, o dinheiro é do povo e não de um único milionário. Os descontos oneram ainda mais os altos impostos cobrados dos cidadãos comuns, não tratados como amigos, além de desviar recursos necessários para assistir os que nem tem de onde tirar.
Em nosso caso - ainda pior - não se trata de simplesmente abater a dívida e conquistar amizade. Parte significativa do subtraído tem ficado antecipadamente com os responsáveis pela cobrança, para construir seus próprios tabernáculos, sem necessidade de incomodar os amigos depois.
Não é de surpreender a evolução do processo de negociação com o decorrer dos séculos, mas provoca indignação a incompetência, falta de responsabilidade ou conluio da vigilância, pois não são múltiplos pequenos desvios pingados de multidão desconhecida, mas manipulação de grandes somas a partir de amigos famosos.
Benesses e troca de favores, realmente costumam estabelecer relações de amizade e cumplicidade. Facilitam transações e mexem com o circuito de recompensa, um dos mecanismos neurais mais importantes para a preservação da espécie. A recompensa pode levar à adição, dependência e voracidade. A amizade pode borrar os limites da lei e da justiça, dificultando o exercício isento de qualquer função.
Colocando-me no lugar de “filhos da luz” ainda não consigo rotular como prudência a atitude dos “filhos deste mundo”. Lucas ouviu mal ou foi mal traduzido...

Thursday, November 27, 2014

Homo Sapiens

Artigo meu, publicado na ZH de hoje

Artigo| HOMO SAPIENS

27 de novembro de 20140
ALOYZIO ACHUTTI
Médico
A designação para a espécie humana pode estar certa, mas como um projeto, ainda longe de estar concluído. Basta ler as manchetes e circular por aí. Nosso comportamento é ainda muito selvagem, violento, predador, ladrão e irracional.
No caminho da evolução, ainda estamos engatinhando e com instintos muito primitivos, inadequados para o tipo de vida que afirmamos ser nossa escolha: civilizada, doméstica e cada vez mais urbana.
A evolução, a seleção natural e a adaptação das espécies têm uma força muito grande, mas exigem tempo e longa experiência de várias gerações para imprimirem sua marca em nossos genes, escolherem os mais adequados e deletarem os que não prestam. Nossa presunção é de que somos obra acabada e que não necessitamos mais evoluir. Participamos do mesmo processo universal, com pequenas diferenças, embora sujeitos às mesmas leis naturais. Além de estarmos submetidos, temos uma ingerência também como protagonistas, somos capazes de interferir no processo, nem sempre no bom sentido. Sábios, fazendo as escolhas mais acertadas, só quando formos domesticados e abandonarmos a selvageria.
Quanto do que nos vangloriamos como conquistas nossas racionais não passam de forças naturais de adaptação evolutiva?
Em artigo do dia 24 de novembro do New York Times, “Our cats, ourselves” (Nossos gatos, nós mesmos), Razib Khan tece considerações em torno de resultados de uma pesquisa de geneticistas que comparam a domesticação de nossos gatos (com 9,5 mil anos) com a de nossos cães (com 30 mil anos), fazendo importante diferença no comportamento desses animais.
Nós mesmos estamos também num processo evolutivo semelhante de domesticação, com uma experiência muitíssimo mais recente, embora progressiva, para um modo de vida urbano.
Provavelmente, evoluímos de “homo domesticus” para “homo urbanus”, mas falta-nos muito ainda para merecermos o rótulo de “homo sapiens”.
Com persistência, coragem e um pouco de sorte, chegaremos lá…