3.209 AMICOR 30/10/2026
Câmara Municipal dia 17 de dezembro de 2015
Aloyzio
Achutti (apresentador)
Prezados membros da Mesa Diretora,
excelentíssimos Vereadores, autoridades, amigos...
Antes de terminar 2015 - ano, no qual
fui honrado com o título de Cidadão Porto-alegrense, por iniciativa do Exmo.
sr. Vereador Waldir Canal, com entusiasmo aproveitamos a oportunidade para
apresentar nesta Casa um pouco do que nos motiva, em consonância com seus
nobres objetivos visando a qualidade de vida da população de nossa Porto
Alegre.
Assim como evoluímos das cavernas para
a complexidade da vida em cidades, a medicina - iniciada como um ritual que
cuidava do moribundo e seus familiares, passou a se antecipar ao dano final,
tratando mais precocemente pessoas doentes e antecipando-se ao prevenir
doenças. Mais recentemente preocupa-se em promover a saúde, envolvendo-se com
todas as circunstâncias nas quais doenças se desenvolvem, tentando atuar antes
que apareçam, protegendo e promovendo, em cooperação com os próprios cidadãos,
e a população como um todo.
Não são somente bactérias e vírus, ou
processos degenerativos mal compreendidos, os responsáveis por doenças e morte
precoce. Saúde e doença estão relacionadas com a vida que a população leva,
hoje predominantemente em cidades.
É importante o comportamento grupal,
mas está determinado por características humanas, muitas delas comuns a todos
os animais. O Circuito da Recompensa é fundamental para o aprendizado e a
própria preservação da espécie. Tendemos a repetir o que nos dá prazer e segurança,
e fugir ou agredir o que nos causa dor, medo ou frustração.
A urbanização acompanha e determina
desenvolvimento, mas tem deixado um rastro de problemas não resolvidos, e uma
parte da população para trás, comprometendo a sustentabilidade e a própria vida
no planeta, como já vem acontecendo em vários bairros de nossa própria cidade.
Parece que nos comovem mais os problemas e perigos em escala mundial, enquanto
somos menos sensíveis com os vizinhos que moram a nosso lado
.
Mesmo aposentado há vinte anos como
professor universitário, estou ligado ao Grupo de Pesquisa e extensão “Saúde
Urbana, Ambiente e Desigualdade”, Departamento de Medicina Social da UFRGS.
Trata-se de grupo transdisciplinar
de professores, alunos e cidadãos com interesse em promoção da saúde através do
referencial urbano, modo de vida escolhido atualmente pela maior parte da
humanidade.
Grande parte da cura e prevenção de
doenças não está na mão dos médicos, nos hospitais, nem nas farmácias, mas está
aqui onde se discutem e se fazem as leis que regem a vida urbana, e na mão dos
cidadãos capazes de informar e eleger os responsáveis pela política. Nossos
alunos não podem se formar alienados, com a ilusão de que detém o poder de vida
e morte, por isso agradecemos mais uma vez a oportunidade desta visita que abre
uma janela e um canal de comunicação para uma parte da cidade que não faz parte
de nosso quotidiano.
A cidade ao mesmo tempo que facilita o
acesso a muitos recursos pela proximidade mantém alto nível de segregação e
torna evidente a desigualdade de renda e de outros indicadores de
desenvolvimento humano comprometendo a qualidade de vida. Essa visibilidade
tende a agravar o afastamento dos privilegiados dos menos dotados e contribui
para a redução da autoestima e aumenta a sensação de rejeição, compromete a
cidadania e é motivo de agressividade.
O desenvolvimento científico e
tecnológico - uma das grandes conquistas da humanidade, paralelamente à
urbanização - tem seu fomento nas universidades, e motivação na concentração de
riquezas e poder, mas com distribuição muito desigual em todo o mundo, pondo em
risco nossa própria existência.
A sustentabilidade desse
desenvolvimento, bem como a regulação da atividade poluidora e predatória,
foram objeto de duas importantes reuniões internacionais no corrente ano.
Uma delas discutiu os ODS, agenda
internacional que parte do Banco Mundial e da Onu/Oms
E se foca em investimentos sociais
(saude, educação, segurança) em infraestrutura urbana (saneamento, habitação
transporte) nas cidades como nova fronteira de investimentos econômicos
globais. Estamos preparados para interagirmos com esta agenda?
O futuro começa hoje! ou começou ontem?
Praticamente todos os itens da agenda ODS fecham com nossas preocupações e com
política urbana:
- 1-6
- Redução
da pobreza
- Redução da fome e segurança alimentar
- Saúde
- EDUCAÇÃO
- Igualdade
de gênero e empoderamento da mulher
- Água e
Saneamento
- 7-12
- 13-17
Agenda para Desenvolvimento Sustentado:
- lançada
pelas Nações Unidas em 2012 para ser implementada após 2015 em seguimento
à agenda dos Objetivos do Milênio
- dois
componentes: perseguir as metas do Milênio onde elas não se concretizaram,
e identificar objetivos e promover metas de desenvolvimento sustentável
- no
foco desta nova agenda estão problemas urbanos: a erradicação da pobreza e
da segregação urbana, e o desenvolvimento urbano com sustentabilidade
social e ambiental – investimentos em água, saneamento, habitação,
mobilidade urbana... E educação, segurança, e saúde…
- Justificativas
demográficas, sociais (aumento das desigualdades), o aquecimento global, a
aceleração da urbanização, a crise hídrica, a crise energética...

A estratificação socioeconômica retrata
e determina a qualidade de vida. Conforme disse um de nossos colegas: na medida
em que nos distanciamos dos bairros privilegiados vamos perdendo anos de vida e
se modifica o perfil e a expectativa da população.
Saude é resultado de como se
nasce, mora, trabalha, se diverte, aprende, tem lazer, namora, se
reproduz, cria, tem prazer e satisfação com o que se ocupa...
- Já existe muita gente preocupada e investindo em Promoção da Saúde,
mas ainda falta cooperação e integração.
- A CIDADE existe justamente para isso. Nosso capital humano
desperdiçado, e nosso potencial são enormes.
- Unindo-nos, em vez de lutar uns contra os outros, podemos aumentar
a produção e o acesso ao consumo, contribuindo para o bem estar de todos -
medida e expressão da SAÚDE URBANA
Na semana passada encerrou-se a COP 21
em Paris onde foram apresentadas mais uma vez as evidências de desequilíbrio
ecológico de nosso planeta, discutidos as consequências e possíveis remédios, e
negociadas resoluções


- Nossa espécie, embora tenha enorme
potencial criativo, aprende muito fácil a reconhecer e seguir modelos: se
é limpo - tende a conservar, se em desordem - não arruma e até depreda, se
violento - adere à baderna, destrói e incendeia.
- Seguimos até agora projetos americanos
criticados de décadas passadas:
segregação, pouca gente caminhando nas ruas, bang-bang, cidades planejadas
para automóveis e não para pessoas, shopping-centers, edifícios garagem…
- Em 2016 vamos continuar investindo
em projetos de mais de meio século atrás, e que não deram certo?
- O presente são projetos como o da
Secretária dos Transportes de Nova York: cidades para as pessoas, mais
inclusivas, pessoas nas ruas e parques, bairros mistos, menos segregação
espacial, mais inclusão e democracia.
- Porto Alegre é símbolo do
ambientalismo: Lutzenberger, Agapan.. Porto Alegre é uma das cidades mais
arborizadas do Brasil, desde projetos do Prefeito José Montaury - primeiro
intendente da cidade. Orçamento Participativo, Fórum Social Mundial…

Fórum Social Mundial de 2016 em Montreal no Canadá:
Alternativas econômicas, sociais e solidárias
Comunicação, ciência, tecnologia e democratisação do saber
Cultura da paz, prevenção e resolução dos conflitos
Descolonização e solidariedade internacional para outro desenvolvimento
Defesa da Terra-Mãe e justiça ambiental
Democratização e poder de ação da humanidade
Direitos humanos, dignidade e auto-determinação dos povos
Identidades, diversidades e gêneros
Justiça social, serviços públicos e compartilhamento de recursos.
Migrações e cidadania sem fronteiras
Sociedade civil, convergência de movimentos e participação cidadã.
Trabalhadores e cidadania face à mundialisação capitalista
Desenvolvimento Comunitário
Já existem muitas comunidades e
Instituições públicas e privadas interessadas em projetos de Desenvolvimento
Humano e de Cidadania. O ideal seria que nos articulássemos, trocássemos
experiências, o que potencialisaria e daria sustentabilidade aos resultados.
Mencionando alguns conosco mais relacionados:
- Projeto InterSossego
coordenado pela Prof. Alzira Lewgoy,
- Projeto São
Pedro coordenado pela Prof. Tatiana,
- Observatório
da Restinga coordenado pelo Prof. Mauricio Polidoro,
- Comunidade
na Zona Norte visitada pelo Prof. Luis Bilibio,
- Observatório
da Região Glória-Cruzeiro-Cristal
- Horta
Comunitária da Lomba do Pinheiro, liderada pela D. Lurdes,
- ************************************
Se o mundo se conecta não há porque nos segregarmos
dentro de uma mesma cidade…
Como a Universidade pode cooperar com a cidade?
Facilitar a conversa entre políticos, técnicos, cidadãos e setor privado, uma
linguagem que permita interlocução e uma agenda inclusiva, democrática e
sustentável para Porto Alegre?
UFRGS cidadã, via Câmara Municipal.
Dispomos de uma extensa bibliografia disponível na
página de nosso Programa http://www.ufrgs.br/saudeurbana,
ou que pode nos ser solicitada através do endereço achutti@gmail.com,
ou digitando Saúde Urbana ou Urban Health no setor
de busca do blog AMICOR http://amicor.blogspot.com
http://amicor.blogspot.com.br/2015/12/camara-municipal-poa.html
Em tempo: contribuíram mais diretamente para o
conteúdo desta apresentação Maria Inês Reinert Azambuja, Roger dos Santos Rosa,
Paulo Teixeira, Morgana Fernandes e Lucia H Achutti. Entretanto as ideias
resultam de anos de estudo e discussões, bem como contribuição de inúmeros
autores e colegas.