AMICOR 3.211
Mais um artigo antigo e que parece ter interesse permanente...
A ARTE DE
MENTIR
AloyzioAchutti.
Médico
A arte da mentira -
nascemos com ela. Nosso cérebro valoriza a evolução e a adaptação animal,
preparado para aprender, se defender, e preservar a espécie. Novo conhecimento
geralmente não impacta de imediato, nem modifica comportamento. A repetição consolida e constrói novas relações,
tem a ver com a chamada “adaptação emocional” encontradiça a cada passo da
existência, em circunstâncias prazerosas, e noutras não tanto.
O já conhecido, volta
agora com foros de ciência a partir de pesquisa Inglesa na Universidade de
Londres usando técnicas modernas experimentais com neuro-imagem. Também é
oportuno trazer o assunto no clima de propaganda eleitoral, lava-jato,
corrupção, discurso repetitivo nem sempre honesto e verdadeiro.
Ao submeter voluntários a
circunstâncias que propiciam a mentira, uma área em particular do cérebro - a
amígdala (não tem nada a ver com aquela da garganta), cintila, observando-se
progressivo enfraquecimento do sinal com a repetição da experiência. Esta
estrutura faz parte do sistema da recompensa - bastante falado - essencial para
o aprendizado e formação de hábitos, envolvido na obesidade, uso de drogas,
fumo, álcool, dependência, amor, ódio, violência, etc…
O mecanismo do “faz de novo”
é fácil de compreender, e tem a ver com o que acontece quando se traz para a
consciência qualquer memória, gozando-a novamente na imaginação, e dando-lhe
maior número de conexões ao ser devolvida. Cada retorno consolida o caminho e
tende a exigir progressivamente uma dose maior do mesmo para produzir a mesma
sensação.
Isso explica a tolerância
que se desenvolve com coisas moral, e racionalmente inaceitáveis, mas que
entram, ou já estão, em nossa rotina. Também não deixa surpresa ao se
contemplar tanta gente mentindo e roubando. No início podem ser poucos
tostões sonegados, depois usurpados, algumas vantagens “conquistadas”, e se
chega facilmente a contratação de navios sonda da Petrobras, transações
internacionais e formação de quadrilha. A arte da mentira rouba a verdade e faz
o ladrão, seja ele político, empresário, cidadão comum, marginal, psicopata ou
bandido. Mentem para si mesmos em primeiro lugar e depois tentam convencer todo
o mundo.
Há quem diga até que o
mundo chamado de real é uma mentira, não existe, é gerado pelo que cada um
imagina de melhor para si mesmo, termina-se acreditando ser verdadeiro, e se
consolida ao passar a mentira adiante. A mentira subsiste porque outros
deixam-se enganar, ou imaginam-se com vantagens semelhantes às do mentiroso,
cada vez mais auto-convencido e ousado ao ser aplaudido.
A ficção, o cinema, a
“realidade virtual”, as redes sociais, o mercado e a política, criam ambientes
propícios para o exercício da arte de mentir.
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